segunda-feira, 1 de junho de 2015

domingo, 17 de maio de 2015

Genealogia e Historia dos Meirelles e Afins 20 Joanna 2.0 -   A visão de Iracema (Tetê), sua Primogênita -

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O índice do conjunto de blogs desta obra é listado abaixo:
nos enderecos  seguintes:

http://domingosejoanita.blogspot.com.br/
http://domingosejoanita.blogspot.com.br/2015/01/cap-6-conclusao.html
http://domingosejoanita.blogspot.com.br/2015/01/x-apendice-arvores.html
http://domingosejoanita.blogspot.com.br/2015/01/cap-3-descendentes-de-domingos-e-joana.html
http://domingosejoanita.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana.html
http://domingosejoanita01.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana-cont-1.html
http://domingosejoanita02.blogspot.com.br/
http://domingosejoanita03.blogspot.com.br/
http://domingosejoanita04.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana-cont-4.html
http://domingosejoanita05.blogspot.com.br/2015/01/cap-5-ascendentes-de-joana-cont.html
http://domingosejoanita061.blogspot.com.br/2015/02/anna-osorio-do-amaral-matriarca-foto-de.html
http://domingosejoanita062.blogspot.com.br/

O blog anterior a este pode ser encontrado no link abaixo
http://domingosejoannitajoanna1.blogspot.com.br

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Capítulo 2 Joanita seção 2.2 
Joanna e a visão de Iracema 


Iracema Vianna Meirelles N 21/08/1905 e F em 04/07/ 1975
C em 6/10/ 1933 casamento nr 1852 4ª pretoria Freg Lagoa Gávea Lv 65 fls 50
com Antonio Ferreira da Silva Quintella N no Rio em 16/06/1903 e aí F a 06/05/1956

Tetê foi depois de seu pai quem por mais tempo e com mais intimidade conviveu com Joanna. Reúnem-se aqui anotações esparsas  e fragmentos de  pensamentos encontrados nos cadernos de Iracema, a primogênita do casal Domingos e Joana, adaptadas para dar um sentido e uma organização ao conteúdo. Sendo ela muito delicada e sensível trouxe para todos os que com ela conviveram uma visão muito clara e emocional de sua mãe, por quem guardou grande admiração cultivando sua imagem viva na lembrança. .
Tendo sido Joana um modelo de beleza, refletia Tetê, às vezes,  que a desgraça ou a suprema felicidade espreitam às escondidas nos braços de uma mulher. Isto se acentuou no caso de Joana, por ser bela, inteligente, culta e pró-ativa. Na visão de Tetê, seu pai Domingos teve toda a sorte do mundo ao encontrar Joanna, apaixonar-se por ela e ter tantos ideais legítimos em comum com ela. Todo apoio e energia que Domingos recebeu de sua esposa construíram sua confiança e força para chegar ao sucesso.
Homens experientes e vividos, na Guerra e na Paz, na Política, na Caserna e nas Escolas, como Domingos José, sabiam como ninguém usar as   armadilhas de sedução para enredar mulheres na teia perigosa do desejo. Joana,  contudo, em virtude da profunda influência de seu pai José Pedro, homem das armas e do mundo, sabia reconhecer claramente a diferença e a potência do verdadeiro amor. Afeita a recepcionar em seus saraus e soirées animados por música, dança, poesias, colóquios, tertúlias e palestras, freqüentados por rapazes e moças ambiciosos, desenvolveu raro savoir-faire para a vida social. Por sua magnética beleza, e cativante vivacidade, muito cedo na vida havia percebido que seu físico percorria as trilhas do desejo masculino.  Os olhares, pensamentos e intenções cobiçosos dos homens, todavia eram desarmados por ela graças a sua loquacidade e agilidade de pensamento, remetendo-os para um estado mais racional e equilibrado que lhe permitia observá-los, manobrá-los, analisá-los, avaliá-los.
Foi assim que conheceu, encantou e encantou-se com a figura marcante, franca, amável e objetiva de seu futuro marido Domingos. Mesmo após ter tido seis filhos e perdido dois fetos ela manteve corpo e espírito finos. Sua compleição pálida e rósea e a pele aveludada herdada dos Linden e Raming emolduradas por uma presença e maneira elegantes lhe davam uma distinção ímpar.
Na visão de todos que a conheceram Joana era tida e havida como um anjo bom. Ao longo da vida acolheu órfãos ajudando-os, encaminhando-os. Resgatou algumas mulheres desvalidas ou de má vida. Ora empregava pessoas em insegurança social e migrantes solidarizando-se com eles indicando-os para empregos domésticos ou apresentando-os para seu marido que estava sempre contratando pessoas para o município. Encaminhava jovens para a escola   e ajudava pessoalmente crianças  em dificuldade de aprendizagem. Em  sua própria casa sempre reservava tempo para treinar e educar seus empregados.
Era conhecido seu poder de pacificar espíritos e acalmar pessoas com um olhar meigo, com um abraço, com um afago de mão que removia até a dor, ou só uma palavra amiga. Tanto Tetê, quanto meu irmão Antonio afirmavam inclusive que em seus momentos de dor física, tinham sentido este poder herdado por mim de Joana (Algo que minha formação científica sempre me impediu de aceitar e de utilizar a não ser a pedido dos dois e aplicado a eles).

Outra característica interessante que revela a maneira de ser de Joanna, era a sua alimentação baseada em mel, frutas, legumes, presuntos e queijos, ensinando  inclusive às crianças a saborear um suco de vinho batizado com água à moda Romana. Este último hábito me foi passado por meu avô, pois minha mãe já possuía hábitos alimentares mais variados e meus tios e primos outros ainda diversos. Esta caraterística de gostos alimentares diferentes na família surgiram, primeiro pelo espírito libertário de Joana e Domingos e também pela presença, em vários momentos, de cozinheiros brasileiros naturais do Pará, Maranhão, Pernambuco e de estrangeiros de origem chinesa, indiana, ameríndia e afrobrasileira que ensinavam às empregadas brasileiras receitas originais. Isto deu ao cardápio da casa a variedade necessária e suficiente  para atender aos caprichos das crianças da casa, seus primos e amigos.  Explica-se este acesso a estes estrangeiros aos contactos de Domingos com os filhos e netos dos antigos colaboradores de seu pai e de seu avô, ambos negociantes que tiveram muitos colaboradores, serviçais e até escravos.
Uma outra influência duradoura de Joana, segundo Tetê, foram os valores que norteiam a vida. Os principais foram: respeitar os indivíduos em suas diferentes formas de comportamento e origem, depender de seu próprio esforço para servir a alguma causa vital e vencer na vida, não dependendo de apadrinhamento  (homo faber suae quisque fortunae – o homem é o artífice de seu destino, é o que costumava-se ouvir entre os membros da família),  por a educação em Ciências como investimento prioritário, ser solidário e respeitar os mais velhos, os pobres e desvalidos, bem como os desgarrados que perderam o pé na corrente da existência.

Um dos prováveis irmãos (apesar de padrinho de Joanna e estar presente em vários documentos de família, não se conseguiu ainda sua certidão de nascimento) de Joanna que manteve sempre contato com a família foi Sezinio Raming Vianna seu padrinho de casamento aos 21 anos em 1904, nascido portanto em 1883, provavelmente em Pirahy e falecido em 21 de abril de 1957 como se vê no anúncio abaixo publicado por sua esposa Maria Augusta de Pinho Vianna e sua afilhada Lucy Franklin dos Santos. Através dele e de sua esposa muitas informações e memorabilia dos Raming e dos Vianna foram legados a Iracema. Iracema havia desempenhado o papel de agregadora dos parentes dos diversos ramos da família por muito tempo, mesmo aqueles que residiam em locais distantes da cidade e do estado do Rio de Janeiro.





da Antiga Sé
Av. Passos, 50 - Centro (R. Buenos Aires), Rio de Janeiro, RJ 20051-040

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Contos  e máximas da Vovó Joanna
(Coletados por Tetê) 

Joanna era também contadora de histórias. Habilidade que se propagou pela família, graças às memórias de Tetê,  inspirando muitos contadores de história, piadistas e artistas cênicos. Sua origem sendo mista lusitana,  dinamarquesa e belga ou germânica as histórias que contava refletiam esta influência já assimilada pelos colonos assentados no Brasil. 
Uma história dos Raming, bem escandinava que ficou na memória da família era vinculada a questão da autenticidade e do berço.

Era uma vez um príncipe chamado Abel que,  querendo casar-se, tentou em vão localizar  uma verdadeira princesa, pois muitas das candidatas não conseguiam comprovar sua nobreza. Tendo desistido temporariamente da busca retornou ao seu castelo e lá encontrou à sua espera uma princesa chamada Matilda filha de um duque amigo de seu pai. Suas origens eram perfeitas, contudo, decidiram testar seus modos principescos. Convidaram-na para dormir no palácio e prepararam uma armadilha em sua cama. Em baixo de 20 colchões de fraixéis (as plumas, penugens e penas miúdas mais macias das aves) de cobertas de veiro  (pelos de esquilos) e de lençóis de cassa e cambraia de 200 fios de linho mais macios e delicados de todo o reino puseram uma grande ervilha seca e dura. No dia seguinte perguntaram-lhe  como tinha sido a noite. Ao que ela respondeu que havia sido péssima, pois a cama estava incômoda, parecendo ter-se deitado em algo muito  duro, e portanto havia ficado com o corpo todo moído.  Ao ouvir isto a Rainha-mãe disse para o príncipe: “ Pode se casar com ela, pois com esta sensibilidade mostrou ser uma verdadeira princesa, apesar de filha de um duque”. No casamento solene na catedral de Schleswig (Slesvig Domkirke) o príncipe depositou no altar uma caixa de cristal com a ervilha para que todos se lembrassem do fato.
DOMKIRKE SLESVIG


Havia uma série de contos que  resgatava o folclore de Portugal de onde vinham os Vianna e que explorava as aventuras do Rei David. Uma delas é  apresentada em seguida.


REI DAVID

 Dizem que Saul, certa vez ao perseguir com seus exércitos as forças do Rei David, o ungido por Deus para ser o rei de Israel, o encurralou numa caverna no alto das montanhas. Pôs então de guarda um de seus mais truculentos e cruéis esbirros: -Caifás, apelidado o macaco. Como chegasse a noite e David não saísse, Caifás adormeceu. Ao perceber  isto David se esgueirou para sair, mas Caifás ocupava toda a passagem e não era possível fugir sem acordá-lo. David esperou um pouco e de repente surgiu uma mosca que pousou na perna de Caifás que imediatamente a encolheu abrindo a passagem da caverna. Aproveitando esta oportunidade David escapou da caverna e fugiu para um oásis onde havia uma gruta em que se escondeu. Ao ver o ungido entrar, uma aranha teceu uma teia fechando a entrada. Durante o dia Saul passou por ali com seu exército  e parou para descansar. Ao ver  a gruta Caifás disse: “ vamos ver se David está escondido nesta gruta”. Ao que Saul retrucou: “ Não é preciso Caifás, veja que ninguém entra nesta gruta há muito tempo, senão esta teia de aranha não estaria aí fechando a entrada. Vamos embora procurá-lo em outro lugar.” Mais tarde David saiu da gruta ao perceber que tinham todos partido e agradeceu a Deus pela irmã mosca e pela irmã aranha que o haviam ajudado e disse: “Toda a criação de Deus é útil e boa”.

Uma outra série de muitas  histórias típicas da Renânia-palatinado que mistura tradições belgas, francesas, luxemburguesas e prussianas explora a esperteza do Mestre Coelho enganando os hortelões e as couves, que ele tanto aprecia em sua alimentação. São várias historinhas curtas em que o coelho usa sua criatividade para conseguir se alimentar e escapar da vingança de seus perseguidores.


Uma delas conta que o Mestre Coelho tinha sido mais uma vez apanhado pelas couves que iam agora vingar-se enforcando-o. Quando já haviam posto  uma corda em seu pescoço e o levavam para uma árvore próxima foram surpresos com a choradeira do coelho. Irritadas elas começaram a gritar – “ Cala a boca Mestre Coelho. V vive roubando a nossa horta e agora está aí chorando feito uma velhota covarde”. Mas o coelho respondeu: “Eu estou chorando mas é de pena de Vs, porque uma cigana romani me  profetizou que todo mundo que me visse sendo enforcado ficaria cego”. A couve chefe de Bruxelas falou: “Não faz mal, não faz mal, vamos por vendas em todo mundo e assim não veremos v morrer enforcado”. Assim fizeram. Quando estavam todas vendadas o Mestre Coelho tirou de seu pescoço  nó de enforcado e o pôs num tronco, gritando “ socorro estou morto de medo”. Então as couves riram e puxaram a corda da fôrca, ao que o mestre Coelho fugiu em disparada.

Minha mãe,  Iracema,  costumava lembrar alguns princípios que Joanna repetia para formar o caráter dos filhos. Alguns que consegui coletar e me recordo são:

1 Mulheres que trabalham fora de casa não são necessariamente melhores ou mais confiáveis, mais realizadas ou mais produtivas que as que são mães e donas de casa.
2 Trabalhar em casa ou fora de casa é igualmente enobrecedor para a mulher.
3 O importante é trabalhar em prol do desenvolvimento humano.
4 A arte é o meio criativo de unir a família e a sociedade em torno do ideal de Beleza que abre as portas da sensibilidade para a vida.


O despertar político  e de libertação de gênero coincidiu com o momento de grande transição no Brasil. Suas cartas e anotações estão repletas de orientações e reflexões para as filhas. Iracema, como primogênita e por ter-se casado tardiamente para a época,  com28 anos,  foi a que ficou mais tempo exposta a estes ensinamentos e que foi mais receptiva a eles.Por isso, foi das irmãs a que mais tempo esteve dedicada tanto ao trabalho externo quanto ao  doméstico desde a juventude até o último mês de sua vida.
A sensibilidade de Joanna era grande e transmitiu às filhas  a prática do uso de elogios ao invés de reprimendas para estimular a confiança e respeito mútuos. Ela sabia aprofundar os relacionamentos em tête-à-têtes reservados em que seu olhar agudo convidava a confidências. Por outro lado, desde cedo se acostumou a combinar seu comportamento persuasivo, beleza física para marcar sua ação de forma simpática e incisiva.
Outra característica sua ainda era a fertilidade, transmitida a suas filhas, e que por isso a fazia descrer de métodos pouco científicos como banhos e ingestão de águas minerais, máquinas elétricas de Graham ( que estavam na moda), elixires e quejandos ironizados por ela como bruxarias.



Capítulo 2 seção 2.3 As filhas e os filhos de Joanna 

Iracema ( Tetê) e Yolanda foram as filhas de Joanna que mais se deixaram influenciar pelo seu espírito de independência. Iracema  cedo se dedicou às artes e formou-se na Escola de Música e Yolanda formou-se em medicina.
As atividades iniciais de Tetê em canto e piano ocorreram no Theatro Municipal com professores como  Celeste Jaguaribe, Eugenia Bevilacqua e Heitor Villa Lobos.


Capítulo 2 seção 2.3 As filhas e os filhos de Joanna
Iracema ( Tetê) e Yolanda foram as filhas de Joanna que mais se deixaram influenciar pelo seu espírito de independência. Iracema  cedo se dedicou às artes e formou-se na Escola de Música e Yolanda formou-se em medicina.
As atividades iniciais de Tetê em canto e piano ocorreram no Theatro Municipal com professores como  Celeste Jaguaribe, Eugenia Bevilacqua e Heitor Villa Lobos.

À esquerda Tetê  e o cast de uma ópera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.  1920's
Considerado um dos mais belos prédios do Rio de Janeiro e a uma das 7 Maravilhas do Rio de Janeiro, o Theatro Municipal é a principal casa de espetáculos do Brasil e uma das mais importantes da América do Sul. 
 ---------------------------------------------NOTA HISTÓRICA-------------------------------------------------
O Teatro Municipal do Rio de Janeiro localiza-se na Cinelândia (Praça Marechal Floriano), no centro da cidade do Rio de Janeiro (RJ), no Brasil. Inaugurado em 1909, como parte do conjunto arquitetônico das Obras de Reurbanização da Cidade do Rio de Janeiro (RJ), e abertura da Avenida Central, durante a prefeitura de Pereira Passos, exerce desde sua inauguração um importante papel para a cultura carioca e nacional, recebendo em seu palco importantes artistas, orquestras e companhias de Ballet. A atividade teatral era, na segunda metade do século XIX, muito intensa na cidade do Rio de Janeiro. Ainda assim, a cidade não dispunha de uma sala de espetáculos que correspondesse plenamente a essa atividade e que estivesse à altura da então capital do país. Os seus dois teatros, o de São Pedro e o Lírico, eram criticados pelas suas instalações, quer pelo público, quer pelas companhias que neles atuavam.

O teatro em construção, 1906
Após a Proclamação da República brasileira (1889), em 1894 o autor teatral Arthur Azevedo lançou uma campanha para que um novo teatro fosse construído para ser sede de uma companhia municipal, a ser criada nos moldes da Comédie-Française. Entretanto, naqueles agitados dias, a campanha resultou apenas em uma lei municipal, que determinou a construção do teatro municipal. Essa lei não foi cumprida, apesar da cobrança de uma taxa para financiar a obra. Observe-se que a arrecadação desse novo tributo nunca foi utilizada para a construção do teatro.
Seria necessário esperar até à alvorada do século XX quando a sua construção viria a representar um dos símbolos do projeto republicano para a então capital do Brasil. À época, o então prefeito Pereira Passos promoveu uma grande modernização do centro da cidade, abrindo-se, a partir de 1903, a Avenida Central (hoje avenida Rio Branco) moldada à imagem dos boulevards parisienses e ladeada por magníficos exemplares de arquitetura eclética. Nesse contexto, realizou-se um concurso para a construção de um novo teatro, do qual saiu vitorioso o projeto de Francisco de Oliveira Passos (filho do então prefeito Francisco Pereira Passos), que contou com a colaboração do francês Albert Guilbert, com um desenho inspirado na Ópera de Paris, de Charles Garnier.
O edifício foi iniciado em 1905 sobre um alicerce de mil e seiscentas estacas de madeira fincadas no lençol freático. Para decorar o edifício, foram chamados os mais importantes pintores e escultores da época, como Eliseu Visconti, Rodolfo Amoedo e os irmãos Bernardelli. Também foram recrutados artesãos europeus para executar vitrais e mosaicos. Finalmente, quatro anos e meio mais tarde – um tempo recorde para a obra, que teve o revezamento de 280 operários em dois turnos de trabalho – no dia 14 de julho de 1909 foi inaugurado pelo então presidente da República, Nilo Peçanha, o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Serzedelo Correia era o então prefeito da cidade. Originalmente com capacidade para 1.739 espectadores, em 1934, com a constatação de que o teatro estava pequeno para o tamanho crescente da população da cidade, a capacidade da sala foi aumentada para 2.205 lugares. A obra, apesar de sua complexidade, foi realizada em apenas três meses, também tempo recorde para a época. Posteriormente, com algumas modificações, chegou-se ao número atual de 2.361 lugares.




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Em ensaios Tetê encarnava a seriedade da sua mãe e algumas vezes ela relatava que ao exercitar-se 8 horas por dia  ao piano, por exemplo,  costumava deixar sobre o arremate de madeira, no fim do teclado, uma toalhinha para enxugar o suor. Recordo-me que ela costumava exibir com orgulho o desgaste no verniz desta pequena peça como uma prova de sua dedicação.

Foto à  esquerda - Tetê à direita das tres cantoras em ensaio geral no Municipal.
 
Foto à  direita - Tetê ao piano em que estudou e lecionaria e abaixo seu Neumann.

Estimulada por sua mãe Joanna e seu pai Domingos José, Iracema era ativa aluna sempre
participando dos movimentos sociais de música como mostra a foto abaixo em manifestação à professora D. Eugenia Bevilacqua, que além de se apresentar como concertista (como se vê no recorte abaixo) organizava concertos de suas alunas, das quais Iracema participava com destaque. 
Esta experiência viria a inspirar os concertos de Iracema com seus alunos. 
Na foto abaixo Tetê é a oitava à esquerda   e era reconhecida como o braço direito de seus mestres em virtude de seu talento e dedicação.

Na foto abaixo Tetê é vista na conclusão do curso de Celeste Jaguaribe de M. Faria.    
Ela é a primeira à dir.  sentada na segunda fileira de baixo para cima.

 


Com Heitor Villa Lobos Iracema participou como professora de música da organização de corais nacionalistas nos estádios que reuniam milhares de vozes. Ao fundo á esquerda ela dirige uma das escolas sob  batuta do grande maestro e compositor carioca.


 Por sua simpatia e talento conquistou amigos que lhe presentearam partituras manuscritas ou que lhe foram dedicadas ou encadernadas com seu nome.


Acima duas partituras uma com a assinatura de Villa Lobos e outra com dedicatória de Eduardo Dutra. Abaixo encadernação de luxo em couro com seu nome em letras de  ouro e partitura com dedicatória da compositora Alda Caminha. 


No documento abaixo uma poesia de Celeste Jaguaribe para a dileta aluna Iracema.


------------------------------------------NOTA BIOGRÁFICA--------------------------------------


Celeste Jaguaribe de Matos Faria (5 April 1873 – 9 Sept 1938) compositora, poetisa, cantora e professor carioca (pseudônimo Stella Bomilcar). Filha de João Paulo Gomes de Mattos e Joana de Alencar Jaguaribe Gomes de Mattos. Começou seus estidos em Fortaleza e depois no Colegio Imaculada Conceição em Botafogo. Publicou dezenas de obras das quais se destacam:

·  A morte da boneca (Text: Celeste Jaguaribe de Matos Faria)
·  A noite

·  Canção da velhinha
·  Covardia                                                                                                                               
·  Olhos azuis (Text: Celeste Jaguaribe de Matos Faria)

·  Penas de garça (Text: Auta de Souza)



·  Rosas (Text: Celeste Jaguaribe de Matos Faria)



·  Saudade
·  Tão só


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A sensibilidade de Iracema recebeu impacto pleno de sua mãe despertando-a para a poesia. Ela compôs vários sonetos e poemas mas também manteve uma coleção obras  de poetas brasileiros da primeira metade do século XX em um caderno, de 1926, de cerca de 200 páginas, em ótimo estado de conservação, em poder do autor, que é riquíssimo de sentimento e cuja capa é ilustrada abaixo.

Ela havia coletado poemas para todas as ocasiões. Revendo estas páginas encontrei por exemplo poemas de Olavo Bilac, Cruz e Sousa e um muito significativo  sobre a perda de uma filha  pelo Marques de Sapucahy. É tão tocante que a mencionei a dois amigos que passaram por esta difícil perda. Outro ainda mostra seu espírito apaixonado nas palavras de uma amiga sua a poetisa Virginia Victorino. E por fim mais uma das poesias de sua lavra, escrita de próprio punho, evocando a saudade de   sua mãe Joanna ilustrada abaixo.




Mas suas atividades em arte foram reduzidas após o seu casamento com Antonio Ferreira da Silva Quintella, por sua dedicação ao serviço público, em que trabalhou até a aposentadoria, e também à família, após seu casamento.



Na foto acima ela é vista em ato público da prefeitura em que trabalhou por muitos anos. 
Quinta pessoa da esquerda para a direita.

Nas fotos abaixo Iracema é vista à esquerda com seu irmão Vitor e Mariana, uma neta de uma escrava de seu avô paterno – Antonio José Meirelles. À direita com seu filho Alfredo e Damiana neta de outra escrava de seu avô. Esta ligação com empregadas descendentes de escravos da família foi outro legado de compaixão de Joanna sensibilizada como era com a herança ameríndia e afrobrasileira de sua sogra Anna. A abolição havia sido boicotada pelos republicanos que deixaram de apoiar e preparar os escravos para a independência econômica. Assim estas ações sociais pontuais individuais eram importantes para o desenvolvimento humano do país.

A influência de Iracema sobre sua família no interesse pela música fez com que vários membros se dedicassem a arte. Depois de aposentada no serviço público abriu uma escola de piano que fez época na Zona Sul do Rio. Vários de seus alunos ingressaram na Escola de Música em que se havia formado. Seu piano Neumann de cauda ,com nota fiscal datada de 1926, e seu piano de armário Fritz Dobbert viram muitas mãos hábeis e sensíveis tocarem suas teclas. 




Abaixo cópia da segunda via do Diploma de Piano tirado em 1931 por Tetê assinado por Joanídia Nunes Sodré em 1961. Escola Nacional de Música Universidade do Brasil hoje UFRJ. Joanídia era amiga de Iracema e havia estudado com ela junto a Alberto Nepomuceno, Henrique Oswald, Agnello França e Francisco Braga.

Joanídia (22 December 1903 – 1975) foi a primeira maestrina brasileira tendo estudado a partir de
1927 com uma Bolsa do Conservatório Nacional em Berlin. Mantiveram as duas amigas um contato próximo para a fundação da Orquestra Jovem e durante boa parte da vida. Coincidentemente vieram a falecer no mesmo ano de 1975. 
Na revista da Academia Nacional de Música  de 1994 encontra-se um interessante artigo que conta um pouco do brilhante trabalho de Joanídia, que era admirado por sua amiga Iracema.
http://www.ermelinda-a-paz.mus.br/Artigos/Revistas/07%20-%20Revista%20da%20Academia%20Nacional%20de%20Musica%20-%20Volume%20V.pdf 







Nos documentos acima vê-se o registro de uma homenagem de algumas de suas alunas e convites e programas de seus recitais de 73 e 74.


Legado Cultural de Tetê
Algumas dicas da professora Iracema Quintella para estudantes de piano
Iracema mantinha um caderno de campo com instruções, anotações e reflexões de / sobre / para os alunos. Mantinha um método que pretendia publicar quando faleceu em 1975. Em seguida algumas de suas orientações para os estudantes de piano
Cuidados com o Piano
Afinar anualmente o instrumento
Não deixar que mexam nos pedais e no interior do piano
Nunca envernizar por conta própria a madeira do piano
Posicione o piano em lugar fresco, seco, ventilado,  longe do sol e de umidade
Só transporte o piano com pessoal especializado
Nunca  ponha nada sobre o piano
Nunca deixe objetos pequenos objetos,borracha, lápis, clips ,migalhas de comida ou raspas de qualquer material sobre o teclado
Conselhos para o estudo
                               Mantenha as unhas aparadas e as mãos sempre limpas
Mantenha o seu banco na altura certa que permita um movimento relaxado dos braços e os ombros e pescoço sem tensão
Relaxe os dedos que não estiverem tocando
Mantenha a posição correta da mão sobre o teclado
Pratique todos os dias no mínimo 4 horas e no máximo 8 horas
Exercite ao menos 1 hora por dia  os fundamentos
Ao tocar por partitura mova apenas os olhos de vez em quando para o teclado
Ensaie peças por partes e inicialmente a mão direita e depois a esquerda
Só depois de dominar a peça ponha sentimento  na execução

Reproduz-se abaixo uma das páginas do caderno de campo de Iracema, ainda manuscrito, que iria ser publicado em 1976.




Na foto abaixo estão os três filhos de Tetê, Alfredo, Oficial de marinha Hidrógrafo e Oceanógrafo, Heitor – autor deste texto, e Antonio, advogado.

Nesta ocasião numa livraria no Edifício Avenida Central foi feito lançamento de um dos  livros do autor deste trabalho, intitulado Manual de Psicologia Organizacional da Consultoria Vencedora -1994, publicado pela Makron Books representante da Mac GrawHill.

Algumas histórias dos filhos de Iracema 



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A visão de Tetê sobre as irmãs

Yolanda, a terceira filha de Joanna, se impressionou tanto com a longa convalescença de sua mãe Joanna que segundo ela própria isto fez despertar sua vocação médica. Formada em 1934pela UFRJ, uma das primeiras médicas  do país teve inclusive por calouro Clementino Fraga Filho (baiano e inaciano) com quem manteve sempre excelentes relações profissionais. Casada também com  médico baiano – Edgard de Mello Rodrigues criou em sua casa ambiente de interesse pela saúde que influenciou seus dois filhos. O maior, Edgard destacou-se como fisioterapeuta e Eduardo dedicou-se a Musicoterapia. Infelizmente sua carreira foi prematuramente interrompida por ter ficado praticamente cega após uma cirurgia de catarata realizada na Suíça. Na década de 50  este era ainda um procedimento de risco. A sua amizade com Iracema foi grandemente aumentada pela convivência de seus dois filhos com o autor deste trabalho, tanto no Santo Inácio, quanto na vizinhança da Lagoa em que residiam.




Na foto acima, de março de 1935, Yolanda com a beca de formatura, vê-se uma dedicatória a sua irmã Iracema e a seu cunhado Antonio.
Curiosamente Yolanda e Tetê morreram quase no  mesmo dia de complicações de cirurgia de mastectomia para combater o câncer de mama.  Ora, Iracema havia amamentado a mim seu terceiro filho, mas também o segundo filho de Yolanda- Eduardo.Este fato serve de comprovação de que o câncer de mama é independente de amamentação e da quantidade de leite que uma mulher produza, porque uma tinha abundância de leite e a outra escassez. 


Dalila e Edméa seguiram rumos mais tradicionais no lar, como mães de família. Na foto abaixo vêem-se as quatro irmãs: sentadas da esquerda para direita Yolanda e Edméa, de joelhos Iracema e de pé Dalila.    
Da esquerda para direita: sentadas Yoland e Edméa, acima Dalila e Iracema nos fundos da casa do pai em Santa Tereza, onde havia uma mata densa.
Dalila foi a única das filhas que desenvolveu a religiosidade. Casou-se cedo, aos 19 anos em 1927 e viveu os primeiros anos da vida de casada no Amazonas, pois seu marido Múcio ocupou cargo de secretário de saúde neste estado. De volta ao Rio organizava saraus de música sacra em que sua irmã Iracema tocava piano. Nestas reuniões iam seminaristas e padres. Numa delas foi que meu pai Antonio, conheceu e se encantou por Iracema, perdeu a vocação sacerdotal e veio a se casar com ela. Bendita vocação religiosa da querida tia Dalila, sem ela eu não estaria aqui. Sua casa na Rua Farani era um verdadeiro palacete finamente mobiliado e recheado de obras de arte. As portas de sua casa estavam sempre abertas para os sobrinhos, irmãos e cunhados. Algumas de minhas  festas de adolescência em que reuni meus melhores amigos em arrasta-pés, bate-coxas e jam sessions de MPB foram realizadas lá. Alguns artistas de renome freqüentaram minhas reuniões musicais nas casas de minha mãe e de Tia Dalila, tais como: Gonzaguinha, Antonio Adolfo, Tibério Gaspar, Beth Carvalho, Rildo Hora e outros. Mais adiante com minha tia viúva estive muitas vezes visitando-a com meus filhos. A memória destas visitas é bem vívida do carinho que tinha por meus filhos e seu conhecimento da história da família.



  
                             (E p D) Edméia, Iracema, Domingos, Dalila, Yolanda em 1963




Nesta foto de 1963 vê-se todo o núcleo familiar de Dalila. De pé da E para D
Brenildo (Médico, pesquisador em Manguinhos, autor de coletânea de 9 livros pioneiros sobre CTI publicados em 1974 após simpósios internacionais pioneiros por ele organizados em 1972) Necésio (Engenheiro), Dalila, Múcio (odontólogo), Mário Domingos (Engenheiro especializado em construção de estradas tendo sua empresa ARCAN participado da construção da ponte Rio Niterói ). Sentadas da E para D Ingrid, Antonia e Clarice
Edméa foi das tias aquela com quem o autor teve menos contacto. Talvez porque estivesse sempre muito ocupada com as quatro filhas Cristina, Angela, Marcia e Claudia. Eventualmente também, porque morando com meu avô  a minha atenção maior era para ele.


Os filhos de Joanna – Fausto e Vitor
Estes dois filhos mais novos de Joana incorporaram o espírito de servidores públicos que herdaram  de seu pai Domingos José.
Vitor tinha muito contacto conosco e foi ele que nos deu um memorável canino – Pery – que substituiu o meu primeiro cão – Dominó – doado pelo tio Ary Quintella, irmão mais novo de meu pai. Vitor era uma personalidade light sempre alegre e sorridente casado com uma pessoa absolutamente feliz.  O casal criava em torno deles uma aura  alegre e contagiante. Tio Vitor era sempre um bom companheiro para os jovens da família. Mesmo quando já tinha idade bem avançada o encontrávamos nos jogos do Botafogo,  ou em suas longas caminhadas pelo bairro onde morava e nos calçadões da praia. Perto de sua casa, na Rua Barão de Macaúbas, havia um campinho de futebol onde jogávamos com seus filhos Vitor e Marcelo e uma turma do bairro surpreendentemente internacional.  Havia nesta turma dois chineses, Tuing e Chang, um indiano Narendra e outros de outras nacionalidades.
Fausto e sua esposa Kita eram pessoas que tinham grande apreço pela vida noturna e estavam sempre circulando em meio a socialites. Tio Fausto era um grande companheiro para seus sobrinhos. Ele foi meu padrinho de crisma e na ocasião me presenteou com meu primeiro terno para a cerimônia realizada na Igreja do Colégio Santo Inácio. Seu proverbial espírito compreensivo certa vez deu a mim e a alguns colegas de faculdade, todos estrangeiros com bolsa de estudos na PUC, a confiança de procurá-lo em uma encrenca em que nos metemos. Estivéramos numa boate em Copacabana e por um descuido nosso, ou má-fé dos donos do estabelecimento, a conta ficou muito acima do que todos nós tínhamos nos bolsos.  Por conta disto não iam nos deixar sair sem pagar o total devido. Então, como meu tio morava ali perto me ofereci para ir recolher a diferença e conseguir resgatar todos. O dono da boate concordou, mas exigiu que deixasse com ele a garantia de meu relógio suíço Mido.  Quando me avistei com o tio Fausto em sua casa de madrugada, pensei que ele fosse ficar muito zangado. Mas fiquei surpreso com sua afabilidade e compreensão. Riu muito, deu boas gargalhadas, alguns conselhos sobre a vida noturna e deu-me o dinheiro para o resgate de meu Mido e de meus colegas.